É difícil dizer quem exatamente começou a falar desta questão, e temo fazer uma injustiça. Posso falar que Niles Newton (que foi quem por primeiro estudou os efeitos da ocitocina no comportamento), Michel Odent, Ina May Gaskin e Roberta Scaer (que escreveu o ivro “A Good Birth, a Safe Birth” em meados dos anos 80 onde no capítulo “The Pleasure Principle”, ela alinhava os princípios do paralelismo entre parto e sexualidade) estavam entre os primeiros profissionais da área do nascimento a trazer tal aprofundamento. Muitos outros os seguiram nas pesquisas e na divulgação desta idéia, que agora produz um filme como “Orgasmic Birth” para reforçar a idéia de que qualquer mulher, dadas as condições de intimidade, privacidade, carinho e respeito, pode ter um parto empoderador e orgásmico.
Parto orgásmico não só é possível como é muito mais comum do que parece. O debate pode ser recente, mas a possibilidade de se encarar o parto como um evento pleno de prazer é tão antiga quanto a própria humanidade. Inicialmente é importante definir do que se trata parto orgásmico, e para tanto inicio explicando o que ele não é. Parto orgásmico não é uma técnica ou um método. Parto orgásmico não é uma moda, uma “new fashion”, uma onda. Parto orgásmico não é um produto, algo que se compra ou adquire. Parto orgásmico é um mergulho profundo no ser feminino. É a descoberta do prazer de parir; o segredo mais bem guardado, no dizer da parteira americana Ina May Gaskin. O parto orgásmico é uma possibilidade para qualquer mulher desde que possa se despir das capas de medo criadas pela cultura patriarcal que tenta dominar a força criativa da mulher, culpabilizando-lhe o prazer e domesticando o feminino. Entretanto, as conquistas recentes neste campo abriram as portas para a discussão da sexualidade da “nova mulher pós-pílula” e, como conseqüência, emergiu o debate do parto como parte da vida sexual de qualquer mulher. A partir deste momento, em meados dos anos 80, inúmeros pesquisadores se entregaram ao estudo das características psicológicas, afetivas, emocionais e hormonais relativas ao nascimento e se depararam com constatações no mínimo inquietantes: havia uma similaridade impressionante entre parto e atividade sexual em todos os aspectos analisados. A mesma perda cognitiva, o mesmo apagamento neocortical, a mesma necessidade de privacidade, a mesma confluência circulatória para os genitais e os mesmos hormônios envolvidos. A ocitocina surgia como o hormônio chave para a compreensão do fenômeno do parto. Michel Odent, médico francês radicado em Londres o chama de “o hormônio do amor”, porque está presente sempre que um momento amoroso se expressa, como no parto e no encontro sexual. Além disso, seu hormônio oposto, a adrenalina, fundamental para o orgasmo, é o mesmo hormônio implicado no reflexo de ejeção do bebê. Fácil fica, para qualquer observador perspicaz, que existe um claro paralelismo entre os eventos do parto e os do sexo, fazendo-nos enxergar pela primeira vez o nascimento inserido nas forças sexuais de uma mulher. Mas tão logo percebemos a sexualidade escondida por detrás dos eventos que cercavam o nascimento, ficou-nos claro que as repercussões desta “nova” visão do nascimento só poderiam ser dramáticas. Já não seria possível encarar o parto como um evento biológico, artificialmente controlado em função das variáveis mecanicistas que são ensinadas na escola médica: feto, percurso e força contrátil. Haveria que se modificar totalmente a percepção do evento que passaria dos domínios do profano para o âmbito do sagrado. Através desta maneira radical de compreensão, tornava-se muito difícil continuar a entender o nascimento humano de uma forma mecanicista, pela evidência inequívoca de que a sexualidade extrapola claramente os limites da corporalidade. Tanto quanto no sexo, existe muito mais no nascimento humano do que o que se pode encontrar no corpo e suas medidas. Assim sendo, abria-se automaticamente uma nova dimensão no nascimento, qual seja, a indissociabilidade das emoções e sentimentos ao lado dos eventos mecânicos já conhecidos. Ficou evidente que muitas mulheres falhavam em ter seus filhos de uma forma mais natural porque algo além do corpo as impedia. Passamos a entender também que a própria sensação dolorosa estava nitidamente ligada à maneira como tais mulheres “sentiam” o parto, na integralidade dos processos participantes. Elementos muito mais sutis (mas não menos poderosos) do que as células, tecidos e órgãos atuam durante a prática sexual e o trabalho de parto. Caberia a nós, assistentes do nascimento, descobrir onde estavam estas outras “forças ocultas” que, assim como no sexo, alojavam-se em um estrato diferente da nossa consciência superficial. Desta forma, a sexualidade, o prazer e o orgasmo entravam no discurso de um pequeno grupo de profissionais que percebiam a possibilidade que as mulheres tinham de acessar estas sensações desde que específicas condições ambientais pudessem ser criadas. Tais condições nada têm de complexas, dispendiosas ou caras: trata-se de oferecer-lhes dignidade, privacidade, cuidado respeitoso e carinho. Praticamente as mesmas necessidades que qualquer mulher procura para um encontro de amor.
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