Ric Jones

“Humanizar o nascimento é restituir o protagonismo à mulher”

6
Jul 2008
Novo e Velho
Posted in Uncategorized by admin at 2:43 pm |

No último congresso em que estive, em San Cristóbal de Las Casas - Chiapas (México) estavam presentes parteiras profissionais (Certified Professonal Midwives - CPMs) americanas, enfermeiras obstetras, e até médicas. Elas são mulheres que realizaram cursos de parteria e são admitidas no sistema oficial dos Estados Unidos, capacitadas para atenção ao parto, e o realizam no hospital (no caso das nurse-midwives - parteiras obstetras) e no domicílio (no caso das CPMs). São mulheres que moram em cidades, dirigem carros, e participam de uma sociedade moderna e tecnológica. Ao lado destas mulheres, durante todo o congresso, havia centenas de parteiras tradicionais do México e da Guatemala (San Cristóbal fica alguns poucos quilômetros da fronteira), que vivem em pequenas comunidades rurais, afastadas dos grandes centros urbanos, sendo muitas delas analfabetas. Havia um claro fosso cultural entre as parteiras urbanas do primeiro mundo com as parteiras rurais e terceiro-mundistas.

No último dia do congresso foi realizado um evento: uma festa de confraternizaçã o, para que todas as participantes pudessem se divertir e se conhecer um pouco mais. O local escolhido foi uma “danceteria” moderna no centro da cidade. Para lá fomos, eu e Robbie, para participar do encontro e conversar com amigos de “outros carnavais”. Quando nos dirigíamos para o encontro festivo avistamos pela rua um pequeno grupo de alegres parteiras tradicionais da Guatemala. Com seus cabelos compridos e suas indefectíveis roupas coloridas dirigiam-se para a mesma festa. Estavam entusiasmadas e excitadas, pois San Cristóbal, com seus 150 mil habitantes, era muito maior que os vilarejos onde vivem na Guatemala. Reconheceram- nos e perguntaram a melhor maneira de encontrar o endereço da danceteria. Indicamos-lhes o caminho e lá se foram elas, felizes e risonhas. A mais velha entre elas tinha entre 60 e 70 anos, e parecia assustada com a cidade. Caminhava atrás de suas colegas, e tinha um olhar tímido e desconfiado. Trajava uma saia comprida e colorida e tinha os cabelos brancos e compridos, adornado com tranças compridas amarradas com uma fita vermelha. Quando elas se afastaram, e pude vê-las de longe, eu cutuquei Robbie e apontei em direção à velha parteira de longas tranças.

Robbie sorriu, e de seu sorriso brotou uma lágrima de compaixão: a parteira guatemalteca estava descalça.

A velha parteira ia para a moderna danceteria sem sapatos, para lá escutar sons de outros países, olhar danças estranhas e tentar entender como podiam estas pessoas tão distintas e diversas estar pensando nos bebês que precisam nascer através de tantas e diferentes mãos. A nudez daqueles pés trouxe para mim a mais vívida imagem do choque entre o velho e o novo, a tecnologia e a tradição, mas pariu em mim a necessidade de honrar os pés descalços daquela mulher, que tanto caminharam para dignificar o nascimento de suas irmãs.


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