Ric Jones

“Humanizar o nascimento é restituir o protagonismo à mulher”

3
Apr 2009
Sobre Chatos e Xiitas
Posted in Parto Humanizado by admin at 7:52 pm |

“Daqueles que reclamam da barbárie, da desconsideração e da indignidade com a forma como conduzimos o nascimento humano no ocidente dizemos serem “chatos” e “xiitas”, mas não chamamos de violentos aqueles que, através do silêncio ou do escárnio, colaboram para a destruição sistemática do feminino na nossa cultura.” Na internet está rolando um texto de uma gestante que está para ter seu segundo filho. Jornalista, casada com um escritor conhecido, ela discorre sobre as conversas desagradáveis que teve durante a sua atual gestação. Em ocasiões sociais algumas “radicais” lhe falaram das inquestionáveis vantagens dos partos normais sobre a alternativa cirúrgica, o que lhe causou irritação e inconformidade. A sensação que ela descreve é de que estas mulheres filtravam a maternidade através do parto natural, não permitindo que uma mulher pudesse sentir-se mãe tendo recebido seu bebê pela via operatória. É evidente que na gestação anterior ela sofreu uma cesariana. Nada mais natural, pois pertencendo a este extrato social - a classe média brasileira - a sua chance de ter um parto vaginal (não necessariamente “normal”) sequer passaria de 15%. A justificativa para o procedimento veio na sentença curta e inquestionável que muitas mulheres escutam todos os dias nos hospitais do ocidente: 
- Se quiser esperar mais, tudo bem. Mas o bebê pode entrar em sofrimento fetal. Nas suas próprias palavras, mesmo sendo contra a sua vontade (e aqui “vontade” talvez não signifique o mesmo que “desejo”) a cesariana foi muito linda. Ok, o bebê no útero só pode fazer “sofrimento fetal”, mas a lógica cruel e inexorável da frase do seu médico está além da razão ou mesmo da concordância.  As palavras deste profissional são marcadas por uma brutalidade para qual não existe escapatória: não há como questionar, discutir, argumentar ou mesmo protestar. Não há recurso: Maktub! Aquele que, em sã consciência, se permitiria enfrentar o poder médico numa circunstância como esta que atire a primeira pedra. O nascimento de uma criança é sempre um evento lindo. Não há porque questionar que mesmo a mais violenta das cesarianas tem como resultado final o brotar de uma vida, e que este momento em si é revestido de uma beleza acima de qualquer discussão. Não se trata, assim, de obscurecer a luminosidade fulgurante que emana de cada vida que se faz. O que nos cabe fazer é interpretar a cesariana e seus determinantes, assim como a razão pela qual uma mulher escreve um texto reclamando de algo que ela chama de “patrulhamento xiita” dos defensores do parto normal. Este texto não é um fato isolado na Internet. Podemos colocá-lo junto com alguns textos americanos e brasileiros recentemente escritos e que contém a mesma lógica. O texto sobre cesariana da Fernanda Torres está na mesma linha, obedece às mesmas premissas e chega ao mesmo ponto. Estes textos todos são escritos por pessoas que reclamam de algo que elas imaginam ser um “excesso de correção”. Possuem a mesma tonalidade das mensagens que criticam os “chatos antitabagistas”, os “chatos da alimentação natural”, os “chatos da ecologia”, os “chatos da reforma agrária”, etc.  É interessante notar que quando a “mensagem” já não pode mais ser racionalmente combatida as queixas se dirigem imediatamente aos “mensageiros”. Nesta etapa do amadurecimento das idéias - e do montante de informações e evidências - já não cabe mais se contrapor ao mérito de tais questões: não há mais espaço para defender o cigarro, a cesariana desmedida, o latifúndio improdutivo ou a comida ‘lixo’ que enfiamos goela abaixo. Entretanto algumas pessoas se irritam com a pressão que a sociedade exerce para que elas construam para si - e para os que as cercam - atitudes conscientes, positivas, saudáveis e ecologicamente determinadas.   Ao mesmo tempo em que estas pessoas tentam se contrapor à avalanche de dados, pesquisas e evidências que mostram a correção destes postulados, elas não suportam serem cobradas quanto à uma mudança de postura. Sentem-se amordaçadas pelo “politicamente correto”. Claro que existem chatos, e até entre os que defendem o parto natural, mas os chatos “ecologicamente corretos” são em número infinitamente menor do que aqueles que vomitam fumaça, MacDonalds ou cesarianas injustificadas na sua cara sem a menor cerimônia ou pudor. Para cada “chato do parto humanizado” existem 10 pessoas chatas e inconvenientes que debocham de quem dá à luz seus filhos “como bicho”. Estas são em número muito maior, mas como estão nadando no ‘mainstream’ não parecem fazer tanto barulho. Dos rios dizemos violentos, mas não chamamos violentas as margens que o oprimem” já dizia Bertold Brecht. Maximilian sempre me ensinou que aqueles que reclamam da barbárie, da desconsideração e da indignidade da forma como conduzimos o nascimento humano no ocidente dizemos serem “chatos” e “xiitas”, mas não chamamos de violentos aqueles que, através do silêncio ou do escárnio, colaboram para a destruição sistemática do feminino na nossa cultura. Ele se insurgia contra essa injustiça e essa cegueira auto-induzida. A verdade é que este texto, assim como os outros que reclamam do patrulhamento da amamentação e de outras condutas sabidamente positivas, apenas demonstra a tremenda dor que esta mulher ainda sofre por sua cesariana. Seu texto nada mais é do que uma tentativa de proteger-se através de uma “declaração antecipatória” para, caso volte a ter outra cirurgia, ela já esteja prevenida (o que é quase inevitável visto pertencer à “tropa de elite” da cesariana do Brasil - nível superior, classe média, madura e com cesariana prévia).  Não me critiquem e não me patrulhem, e nem sequer me falem de parto normal, senão solto os cachorros de novo”. Espero que desta vez ela possa ter um parto empoderador e maravilhoso, mas também nutro a esperança de que ela se liberte do comportamento “xiita” de patrulhar os humanistas. Para mim o texto dela descreve muito mais a ela mesma do que as mulheres cujas atitudes condena. Patrulhamento por patrulhamento, eles se igualam no dogmatismo inerte, mas pelo menos o humanístico e ecológico é mais solidário e progressista.BeijosRic
PS: Ninguém é mais mãe ou mais mulher por ter feito parto normal, assim como ninguém é mais homem por possuir as duas pernas. Entretanto, valorizo o parto normal como um importante componente da história de uma mulher, tanto quando entendo como sagrada a integridade física de qualquer pessoa.
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One Response:

Adri Abujanra said:

Ric, vc tem esses dpis textos pra me mandar ?

Bjs


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