Ric Jones

“Humanizar o nascimento é restituir o protagonismo à mulher”

5
Jan 2010
Paternidade
Posted in Parto Humanizado by rhjones at 1:17 am |

PATERNIDADE

“Se acreditarmos no “imprint” do nascimento, onde as palavras – feitas da energia do simbólico – volitam sobre as consciências e deixam marcas no ser que brota, como impressões indeléveis e indestrutíveis de um desejo que se faz presente, também teremos de crer que estes sinais fazem caminhos no corpo do pai que nasce. Também ele se transmuta; se metamorfoseia e se cria.” A importância da presença do pai para a realização de um parto em harmonia é um tema que eu nunca cansei de pesquisar e estudar. Esta é uma questão que eu carrego há quase 30 anos e um debate que sempre me acompanhou. Há alguns anos Michel Odent colocou em dúvida se a presença dos homens na cena do parto poderia ser positiva em todos os casos, como se costumou acreditar no mundo ocidental. Pois eu acredito que ela é sempre positiva, desde que a gestante esteja de acordo. Colocar a decisão com a mulher é, para mim, a melhor maneira de compatibilizar as necessidades femininas de tranqüilidade e privacidade com os desejos masculinos de participar do evento de forma efetiva.  Recém formado na sóbria escola médica da Universidade Federal, fui trabalhar em um hospital militar na periferia da minha cidade. Como seria de esperar, as regras deste hospital, em relação à presença de acompanhantes, seguiam as normas extra-oficiais do restante dos hospitais brasileiros. Neste pequeno hospital, os protocolos eram ainda mais rígidos, provavelmente por ser este uma unidade militar - Não é permitida a entrada de acompanhantes nas dependências do centro cirúrgico e centro obstétrico. Esse era o recado afixado na porta da acanhada maternidade.As exceções eram oferecidas de acordo com a boa vontade do cirurgião ou do obstetra, e também quando uma patente militar muito superior impunha certa deferência. Quando fui trabalhar neste hospital meus filhos ainda eram muito pequenos e, apesar de ainda continuar aferrado a muitas condutas que hoje abominaria na assistência ao parto normal, eu já tinha bem nutrida em meu peito a chama de uma indignação que me acompanharia o resto da vida. O nascimento deles ainda estava vívido na minha lembrança; ainda podia sentir os aromas e as cores que coloriram a chegada deles. Ainda brilhavam na minha retina a cor, a luz, o brilho da lágrima, o som primal, o primeiro gemido e as tantas outras sensações que nos invadem quando percebemos a imagem de nossa imortalidade tomando corpo. Por terem meus filhos nascido com a minha presença no centro obstétrico eu acreditava ser devedor de uma vivência fulgurante como essa aos outros homens que porventura passassem pela mesma experiência. Por estas razões, minha primeira conduta como plantonista deste centro obstétrico foi abrir as portas aos pais que desejassem assistir o parto de seus filhos. A estratégia para isso foi incluir a presença dos maridos na “prescrição” rotineira. Entre os itens como dieta, sinais vitais e outros eu, sorrateiramente, incluía “Presença do pai na sala”. Mais do que uma permissão, o acompanhamento era uma deliberação de ordem médica, pois eu intuía que esta presença poderia ser de auxílio para a boa condução do processo. Minha história com a paternidade se inicia no meu próprio nascimento, no corredor frio do hospital dos Moinhos Uivantes.  Os signos e sinais ali estabelecidos por certo construíram a estrutura básica de minha visão sobre a transcendência do nascimento humano. Depois deste fato foi a minha vez de, investido na posição de pai/menino, passar pela grande experiência de participar do nascimento dos meus próprios filhos. A paternidade entrou em mim como um solavanco na meninice que ainda trazia no sorriso. Meu rosto de criança se transfigurou ao perceber que, daquele momento em diante, eu jamais seria o mesmo. A miríade de imagens que percorrem difusamente a parede da minha distante memória apenas me mostra os traços mais salientes de um momento transformador. Jamais eu olharia o mundo com os mesmos olhos; nunca mais eu veria as coisas como antes.  O nascimento dos meus filhos foi a mais intensa emoção, a mais terna lembrança e o momento mais decisivo. Naquele momento se desenhava o rosto que eu carregaria por toda a minha vida.  Tenho o privilégio de olhar um mundo absolutamente feminino de uma estratégica e solitária posição masculina. Conheço as lágrimas vertidas por elas, entremeadas com sorrisos esfuziantes. Sei das suas dores, do corpo e da alma, e tento entender o quanto elas são importantes para esculpir a mulher que se cria diante dos meus olhos, moldada pelo cinzel do parto em sua carne. Parto, partida, cisão; estes elementos são os constitutivos de uma transformação imensa, que modifica toda a nova existência que diante de nós se forma. Bem sei da delícia e da dor de ser o que se é: feminina e fêmea. Dos olhos das mulheres que gestam e geram brota o mais incisivo ensinamento e a mais absoluta das certezas: nada é certo, tudo é supérfluo e inconstante. Mas e os homens diante do furacão avassalador de um nascimento?O que isso significa para a nossa vida, nossa história e nosso futuro? A frase “Parir não é apenas fazer bebês; é fazer mães, fortes, competentes e capazes, que confiam em si mesmas e acreditam na sua capacidade interior”, da antropóloga Barbara Katz Rothman, também poderia ser facilmente aplicável à paternidade. Os pais são moldados nas fornalhas incandescentes de sentimentos que permeiam o nascimento. Passar pelo desafio da confiança, do silêncio assegurador, da palavra de ajuda, do beijo de amor e do respeito às decisões que sua mulher assume é o melhor treinamento possível para os inúmeros desafios que a sua posição paterna determinará. Não existe ensaio melhor para a paternidade que acompanhar sua esposa no momento decisivo do parto. Ali as cartas estarão na mesa, e as decisões tomadas terão repercussões por toda a vida daquelas pessoas. Se acreditarmos no “imprint” do nascimento, onde as palavras – feitas da energia do simbólico – volitam sobre as consciências e deixam marcas no ser que brota, como impressões indeléveis e indestrutíveis de um desejo que se faz presente, também teremos de crer que estes sinais fazem caminhos no corpo do pai que nasce. Também ele se transmuta; se metamorfoseia e se cria. Leonardo Boff nos alertava que o que nos distingue das outras espécies é nossa capacidade de cuidar. Na cena do nascimento, nas energias selvagens do parto, o cuidar se faz presente de uma maneira cálida e intensa. Ali encontramos a mais vívida escola de paternidade, nos ensinando a delicadeza, a sutileza, o carinho e o limite. É desta matéria que se molda um pai. Jogado imperfeito na fornalha do parto, no cadinho dos sentimentos em conflito, onde sobressai o medo e a incerteza, ele ressurge renovado e trans-formado para cumprir a tarefa de ser a mão forte e corajosa a guiar seu filho. É claro que um pai se forma de muitas maneiras, mas ninguém há de negar que a natureza, com sua infinita sabedoria, nos ofereceu uma escola primorosa para auxiliar na complexa tarefa de produzi-los.  E que os séculos que temos diante de nós possam fortalecer os laços entre os pais e seus filhos, para que a humanidade possa ter mais dignidade e justiça. Recordei de uma passagem antiga, que me veio à lembrança nesta gélida manhã porto-alegrense, enquanto comia biscoitos com chocolate quente. Minha filha amada levantou-se de madrugada e preparou um café da manhã especial para mim. Pelo meu aniversário deixou sobre a mesa do café um livro que comprara, presente mais do que bem vindo.

Essa história é um pontinho vermelho no mapa da minha vida.

Eu era um menino de 26 anos, com cara de 18, recém formado em medicina. Numa tarde ensolarada e modorrenta, resolvi levar meu filho Lucas, então com 5 anos de idade, à piscina. Confesso que me envaidecia levar meu pequeno Lucas para passear comigo em lugares públicos, porque as pessoas se impressionavam com o fato de eu ser um pai muito jovem. Caminhávamos lado a lado, e eu nutria a secreta fantasia de que alguma linda menina me perguntasse a idade do “meu irmãozinho“.Ok… ficava só na fantasia.
Pois o Lucas, como toda criança pequena, adorava sol, gente e piscina.
O dia, a propósito, era muito convidativo. A cidade estava tomada de um calor sufocante. Estávamos em fevereiro de um ano do século passado, e eu, como de costume, não podia ir à praia porque estava trabalhando. Cursava o segundo ano da residência do Hospital da Universidade, e minha cabeça fervilhava com os acontecimentos que marcariam toda a minha vida, e que estavam acontecendo por lá. Eu e o pequeno Lucas, então, resolvemos nos divertir entre cachorros quentes, refrigerantes, mergulhos e a leitura de algum livro de medicina.
 
Meu filho era só alegria. Sua irmã era muito pequena para ir a estes lugares, e sua mãe preferiu ficar com ela em casa. Éramos, assim, só eu e o meu velho companheiro.
O dia passou muito rápido. Consegui apenas ler algumas páginas do meu livro. A luz do dia foi se abajurizando, tornando minha leitura paulatinamente mais difícil. Biquínis minúsculos foram escasseando, enquanto o breu do entardecer ia mostrando sua face cansada. A água já dava sinais de perder sua energia e uma brisa fria arrepiava nossa pele. Lucas era infatigável, mas até ele começava a perceber seu cansaço. 
 - Lucas, disse eu, temos que ir. Está ficando escuro. É hora de voltar para casa. Mamãe vai ficar preocupada.- Mais um pouquinho. O Gabriel (ou seria Miguel, ou Samuel?) ainda está aqui. A mãe dele nem veio chamar ainda.- Meu filho… 5 minutos? Pode ser? Nem mais um instante.
E lá se foram mais alguns minutos de brincadeiras, risadas e pulos desajeitados na água. Como era lindo o meu filho descobrindo a vida. E como eu era orgulhoso dele.

Passados alguns minutos, que foram bem mais do que os cinco estipulados, peguei na mão de Lucas. Segurei bem forte e firme, como a dizer que agora estávamos no nosso limite. A mãe do “Gabriel” já havia feito o mesmo, e ambos se despediram apenas com o olhar. As últimas réstias de sol abandonavam nossa visão. Era o sinal.

 
- Agora vamos, meu filho. Chega.Quis fazer cara de choro, mas quando eu mostrei o amiguinho saindo com sua mãe, ele se convenceu de que era mesmo a hora.
- Amanhã a gente volta, né?
- Claro, meu velho.
Continuei a caminhar com ele por volta da piscina em direção ao vestiário. Lucas saltitava, pulava da minha mão. Dava risadas e cantava músicas com letras trocadas. Até que eu vi, ao meu lado direito, meu “turning point“. Ali estava minha grande lição e meu desafio.

Segundos antes de chegar à entrada do vestiário, passamos ao lado da piscina das crianças. A água ainda guardava um resto de calor, mas a piscina já estava vazia. Olhei para meu filho saltitante e brincalhão. Olhei para a piscina sem ninguém. Uma junção tentadora. “Prego esta peça agora, ou não terei outra oportunidade”, pensei eu. “Estamos chegando ao fim do pequeno caminho de pedras que leva ao vestiário, depois à rua e ao mundo. Não tenho mais tempo…. É agora!!”

Com um gesto rápido e inesperado, empurrei Lucas para dentro da piscina. Seu corpo minguado de criança fez “tchibum” na água azulada e, como a piscina era rasa, ele logo voltou à tona, esfregando o rosto. Olhei para ele e dei uma sonora gargalhada. “Ra, ra, ra, ra,  seu bobão !!”, disse eu.

Recuperado do susto inicial, Lucas manteve-se sério. Não parecia ter gostado da brincadeira. Dei mais uma risada histriônica, forçando a barra. Ele continuou sem sorrir. Fez uma face chorosa e disse.

 
- Você não podia fazer isso.- Ora, Luquinhas, é só uma brincadeira. Desculpa. Eu estava só querendo brincar com você. Não queria te machucar; nem te assustar. Desculpa, tá?
Ele continuou em silêncio. Com a cabeça baixa caminhou em direção ao vestiário, mas sem segurar minha mão.
  - Ô cara. Não fica triste. Era brincadeira, vai. - Você não podia fazer isso comigo, insistiu ele.- Porque Lucas? perguntei. Lucas me encarou nos olhos de uma maneira que eu jamais esquecerei. Disse com uma entonação de quem parecia ter 30 anos de idade. Olhou-me como se eu fosse uma criança, e me deu a mais dramática das respostas: - Porque você… é meu pai. Costumamos estabelecer datas que produziram cortes epistemológicos na história. Fizemos assim com a queda de Constantinopla, a queda da Bastilha, ou, modernamente falando, a gravação de “I Wanna Hold Your Hand“, pelos Beatles. Todas elas foram momentos que marcaram simbolicamente a passagem de uma etapa para outra da nossa jornada na terra. As pessoas também têm suas quedas. Também criamos e materializamos símbolos de mudança.                        A frase de Lucas na piscina matou um menino. Caído ao solo, no pequeno passeio de pedras que levava ao vestiário, nunca mais se ergueu. Existe apenas em sonhos, lembranças e no gérmen infantil que todos carregamos. Mas sua existência concreta acabara ali. Morto, sem vida. Mas incrivelmente, nem os salva-vidas da piscina se interessaram por recuperá-lo. Melhor que ficasse, enfim, ali onde estava. Segurei Lucas com minha nova mão. Olhei nos seus olhos, pedindo que tivesse paciência. Meu olhar se encheu de vergonha. Olho para meu corpo de menino ao lado, e me despeço dele. Encarei mais uma vez Lucas, eu menino, e lhe pedi perdão. Meu pedido, desta vez, vinha com uma outra voz. Talvez ele pudesse entender. - Papai nunca mais fará isso. Pode confiar em mim. Ele, então, sorriu graciosamente. Desfez a cara de choro, e deu mais um salto. Pulou de satisfação. Girou, rodopiou. Lançou-se ao vazio. Gritou como se não houvesse espaço nem tempo. Cantou mais uma música de palavras embaralhadas. Sorriu um sorriso gigantesco e mágico. Talvez ele estivesse percebendo, na sua cabecinha prodigiosa de criança que, ao seu lado, seu pai acabara de nascer. 


Ric

 


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